Análise Horizontal: princípios matemáticos e cuidados na interpretação

Quando estamos analisando relatórios financeiros de uma empresa, temos à nossa disposição dois modelos fundamentais de análise: a análise horizontal e a análise vertical. Neste artigo vamos discutir o primeiro deles.

O que é análise horizontal?

A análise horizontal é uma técnica clássica da análise de demonstrações financeiras cujo objetivo é avaliar a evolução de uma mesma conta ao longo do tempo. Em termos simples, ela responde à pergunta: quanto esse valor mudou em relação a um período anterior?

Ela é útil para observarmos a evolução dos valores em diferentes exercícios. E pode ser aplicada facilmente por meio do cálculo de variação, aplicando-se a seguinte fórmula.

Δ=VaVb1\Delta = \frac{V_a}{V_b}-1

Na qual:

  • Δ\Delta é a variação
  • VaV_a é o valor atual
  • VbV_b é o valor base

Note que pode ser feita apenas a análise da variação absoluta. Para isso basta fazer a diferença entre os valores. Mas o cálculo da variação nos traz alguns insights valiosos.

Na prática, a análise horizontal pode ser conduzida de duas maneiras: data-base fixa e data-base móvel.

Data-base fixa

Uma forma comum de efetuar a análise é escolhendo um período para ser a base e mantê-lo fixo, comparando todos os demais períodos com esta base.

Veja o exemplo abaixo:

Valores reais dos três primeiros trimestres de 2025 da companhia Alpargatas S.A. (meramente para fins ilustrativos)

Neste exemplo o primeiro trimestre é tomado como data-base.

Analisando a receita: há queda de 14% no segundo trimestre relativo ao primeiro trimestre. Já no terceiro trimestre, o aumento de 5% também se dá relativamente ao valor do primeiro trimestre. Com o lucro segue-se o mesmo raciocínio.

Esse tipo de análise é bem útil quando se quer conhecer a variação dos valores em relação a algum período que se queira dar destaque. Basta escolher o período a ser destacado como data-base.

Data-base móvel

Já no cálculo por data-base móvel, ao invés de se fixar a data-base, ela se movimenta.

Geralmente se escolhe o período imediatamente anterior à data atual. Mas não é uma obrigatoriedade.

Veja o exemplo abaixo:

Perceba como, no segundo semestre, os valores da análise são exatamente os mesmos daqueles de base fixa.

É no terceiro trimestre que vemos a mudança nos modelos. O crescimento apresentado no período agora é relativo ao segundo trimestre (o período imediatamente anterior).

Note que as variações dos valores no terceiro trimestre são significativamente maiores agora do que no exemplo anterior, uma vez que são comparados a um período de resultados relativamente baixos.

O problema das bases negativas

Um ponto de atenção muito importante quando estamos fazendo a análise horizontal é para a presença de valores da data-base com números negativos.

Veja o exemplo abaixo:

Perceba que a variação do período X1 para X2 apresenta uma queda de 150%, corretamente. No entanto, de X2 para X3, o valor vai de 50 negativo para 100 negativo.

Em termos matemáticos, a variação positiva de 100% não está errada. De fato, houve um aumento no prejuízo, isto é, um aprofundamento do negativo. O problema é que a intuição econômica é que fica prejudicada.

Alguém que não esteja atento e faça apenas uma vista “por cima” poderá pensar que houve uma melhoria no indicador de lucro, o que é falso.

A mesma coisa acontece em X4, em que uma grande melhora no lucro é representada como uma queda de 200% no indicador.

Soluções

Solução 1: inverter o sinal da base

Uma solução para esse problema é simplesmente inverter o sinal da base quando ela for negativa, transformando-a em um número positivo.

Desta forma, o exemplo acima ficaria:

Concentre-se menos nos valores, que são os mesmos, mas na variação percentual.

Pode parecer um pouco estranho à primeira vista, mas os resultados são melhores do que no exemplo original, já que “corrigem” a direção do movimento.

Ainda assim, outros problemas são gerados por essa aborgadem. Vamos dar uma olhada nos cálculos:

  1. ΔX2=501001=1,5=150%\Delta_{X2} = \frac{-50}{100} – 1 = -1,5 = -150\%\\
  2. ΔX3=100(50)1=3=300%\Delta_{X3} = \frac{-100}{-(-50)} – 1 = -3 = -300\%\\
  3. ΔX4=100(100)1=0=0%\Delta_{X4} = \frac{100}{-(-100)} – 1 = 0 = 0\%

No caso 1, nada muda, pois a base (100) já é positiva.

No caso 2, a base seria -50, mas invertemos o sinal, tornando-a positiva, ficando 50. Dessa forma, a fração 100(50) \frac{-100}{-(-50)} assume um valor negativo, já que o valor na data-atual é negativo.

Com isso, o resultado de uma queda de -50 para -100 é representada como uma variação de -300%.

O problema é que, se esses valores fossem ambos positivos (50 e 100, respectivamente), a variação não seria de 300% positivos, mas sim de 200%, confome a equação: 100501=2\frac{100}{50} – 1 = 2.

E no caso 3 também vemos um problema óbvio. Sair de um prejuízo de 100, para um lucro de 100 não significa uma variação de zero porcento.

Nesta abordagem toda variação de números iguais em módulo, mas com sinais invertidos, resultaria em um delta igual a zero.

Solução 2: inverter o sinal após o cálculo

Outra solução (e a que eu prefiro) é fazer o cálculo normalmente e, somente ao final, inverter o sinal. Lembre-se: só vamos fazer isso quando o valor da data-base for negativo.

Desta forma conservamos o cálculo matemático com todas as suas informações, sem deixar de apresentar o indicador de uma forma intuitiva.

Observe o exemplo nessa nova abordagem:

E os novos cálculos:

  1. ΔX2=501001=1,5=150%\Delta_{X2} = \frac{-50}{100} – 1 = -1,5 = -150\%\\
  2. ΔX3=(100501)=(1)=100%\Delta_{X3} = -(\frac{-100}{-50} – 1) = -(1) = -100\%\\
  3. ΔX4=(1001001)=(2)=200%\Delta_{X4} = -(\frac{100}{-100} – 1) = -(-2) = 200\%

O caso 1 continua inalterado.

No caso 2, a queda de -50 é precisamente representada como uma queda de 100%.

No caso 3, a saída de um prejuízo de -100 para um lucro de 100 é representado por uma variação positiva de 200%.

O raciocínio é simples: para -100 chegar a zero, é preciso um aumento de 100; e, de zero para 100, aumenta-se novamente na mesma quantia.

Conclusão

A análise Horizontal é uma ferramenta poderosa, mas não deve ser aplicada de forma automática. Em especial, variações percentuais com bases negativas exigem cuidado, explicação adicional e, em alguns casos, devem ser evitadas.

Você pode ainda optar por apresentar a variação absoluta dos valores, ao invés da relativa. Acaba-se perdendo parte da capacidade de comparação entre os períodos, mas ainda é possível e útil.

Mas o importante é, sempre que possível, fazer também uma análise qualitativa da evolução. Chamando a atenção para mudanças significativas e com comentários específicos quando conveniente.

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